Posts tagged ‘Muddy Waters’

Biografia em 140 caracteres – Willie Dixon

Conhecido pelos clássicos que escreveu, Dixon era um exímio e original baixista sempre bem acompanhado.

http://www.youtube.com/watch?v=vY9U45YTPRY

 

Um estilo acima de uma canção

Blues 1Tenho uma relação muito particular com a música. Meus heróis da adolescência invariavelmente empunhavam uma guitarra e entoavam cantos que a mim diziam muito. Projetava neles a minha liberdade e achava que o tipo de música que eu ouvia dizia muito sobre quem eu era ou como eu pensava.

Quando eu próprio ganhei minha primeira guitarra — da qual extraio algumas notas de maneira rudimentar — a música adquiriu outra dimensão. Passei a valorizar o chamado feeling de um músico em detrimento de harmonias complexas ou técnica apurada. Assim, quando um amigo pediu que eu falasse sobre a minha música favorita, tentei identificar no repertório dos meus artistas preferidos uma canção que fosse mais importante do que as outras. Fracassei. Não fui capaz de escolher uma. Senti que seria injusto com as outras. Concluí que não tenho uma música preferida e sim um estilo preferido: o blues.

O blues (falo do autêntico) é uma manifestação artística dos desesperados, oprimidos, desiludidos. Nasceu entre os escravos que utilizavam a melodia para relatar a sua angústia, o seu lamento diante das mazelas da vida. Por isso, as interpretações de artistas como Buddy Guy, Etta James ou Muddy Waters são tão arrebatadoras. Impossível ficar indiferente diante de um clássico do Mississipi (mesmo que tenha sido produzido e gravado em Chicago ou outra praça).

Sinto uma mudança instantânea no meu estado de espírito quando ouço um blues. É como se a mão divina me suspendesse e me transportasse para outra dimensão a cada mudança de compasso. É delicioso sentir-se seguindo o músico para ver onde as blue notes nos levarão. Se for pra citar uma música para esse momento, sugiro Feels Like Rain, clássico do Buddy Guy.

******

Texto criado à partir de uma provocação do amigo e escritor Valmor Bordin que quis saber “qual a tua música preferida?”

Siegel-Schwall

TheSiegel-Schwall Siegel-Schwall Band é uma banda de branquelos de Chicago formada em 1964 e gravou uma série de albuns entre 66 e 74, a maioria pelo selo Vanguard.

Corky Siegel (harmônica) e Jim Schwall (guitarra) conheceram-se quando eram alunos do curso de música na Universidade de Roosevelt. Siegel era um saxofonista que tinha no blues a sua principal influência enquanto que Schall era apreciador da música country americana. Mas o gênero que prevaleceu nesta fusão foi o blues, embora o country esteja presente nas guitarras executadas por Schwall.

Durante muito tempo eles foram a banda residente em um clube chamado Pepper’s Lounge em Chicago e acompanharam em algumas ocasioões músicos do nipe de  Junior Wells, Buddy Guy, Billy Boy Arnold, Little Walter, Muddy Waters, entre outros,

A banda acabou em 74 após lançar o premonitório R.I.P. Siegel/Schwall. Reuniram-se novamente em 87 e fizeram algumas sessões esporádicas desde então.

No lynk à seguir um grande momento dos caras em 1971, antecipando o que Brian Setzer viria a fazer alguns anos depois com sua Big Band. http://www.youtube.com/watch?v=d8QRr92qDWc

E em uma aparição recente executando “I Think it was wine” http://www.youtube.com/watch?v=_kAwum6NuTI

Tal pai, tal filho

chuck berryComeçando pelo princípio, parece indiscutível que o rock é descendente direto do blues. Não apenas pelos dizeres de Muddy Waters e Willie Dixon (reproduzidos no final deste post), mas também por uma análise rítmica e estrutural dos dois gêneros, que torna evidente que a matéria prima de um é a base do outro.

Isso fica muito claro quando se analisa a forma pura de ambos. Na época em que surgiu, o rock’n’roll era uma nítida variação branca da música registrada há décadas pelos negros americanos nos chamados “race records”.

Um símbolo desta transição é Chuck Berry, que frequentemente é enquadrado nas duas categorias, conforme a canção ou álbum considerado. Berry, aplicou às mesmas estruturas harmônicas uma levada mais acelerada e enérgica. As composições mudam o tema e deixam de ser tristes (blue) e passam a ser alegres e irreverentes.

Até aí, íamos muito bem. Os roqueiros que surgiram depois – mesmo em forma de banda ou do outro lado do oceano – continuaram rendendo tributos à música do Mississipi. Beatles, Stones, Doors e Led Zeppelin, engrossavam as fileiras do rock e desgarravam apenas um pouco da estrutura tradicional.

Anos mais tarde, alguns músicos vaidosos e menos ortodoxos sentiram-se tentados a misturar e utilizar outras possibilidades que a música ocidental oferece. Por conveniência, mercado ou preguiça, essa nova música continuou sob o rótulo de rock. Quanto mais os criativos músicos adicionavam ingredientes, menos identidade tinham e mais distantes do conteúdo seminal ficavam.

O showbizz deu tanta visibilidade para estes aventureiros que quase se esqueceu das origens. Bastava ter uma banda por traz e uma superprodução para criar um novo rockstar.

E veio o Pop Rock. Aí sim, o mercado enlouqueceu. Tudo cabia/cabe neste rótulo. Chegamos perto do fim. Mas felizmente o tempo é o melhor juiz. Como na literatura, só a música boa permanece e o resto passa.

No dia do rock, ainda se cometem alguns pecados, mas os clássicos ressurgem na memória e até ganham espaço – efêmero, é verdade – na programação da mídia.

Vida longa ao Rock’n’Roll e para o inferno com a criatividade dos músicos ecléticos e virtuosos. O rock não precisa disso. Para ele, quanto mais tosco melhor.

*****

O que disseram os mestres:

“Os blues são as raízes e todos os outros gêneros são seus frutos. Precisamos preservar as raízes para continuarmos colhendo bons frutos no futuro.” (Willie Dixon)

“O blues teve um filho e o chamou de Rock’n’Roll” (Muddy Waters)

O que eles andaram falando sobre o blues I

“Os blues são as raízes. Todos as outras músicas são seus frutos. Precisamos manter fortes as raízes para termos sempre bons frutos no futuro.”

Willie Dixon 

Dixon é autor de clássicos como Hoochie Coochie Man, Mannish Boy e Spoonful imortalizados por Muddy Waters e Howlin’ Wolf.