chuck berryComeçando pelo princípio, parece indiscutível que o rock é descendente direto do blues. Não apenas pelos dizeres de Muddy Waters e Willie Dixon (reproduzidos no final deste post), mas também por uma análise rítmica e estrutural dos dois gêneros, que torna evidente que a matéria prima de um é a base do outro.

Isso fica muito claro quando se analisa a forma pura de ambos. Na época em que surgiu, o rock’n’roll era uma nítida variação branca da música registrada há décadas pelos negros americanos nos chamados “race records”.

Um símbolo desta transição é Chuck Berry, que frequentemente é enquadrado nas duas categorias, conforme a canção ou álbum considerado. Berry, aplicou às mesmas estruturas harmônicas uma levada mais acelerada e enérgica. As composições mudam o tema e deixam de ser tristes (blue) e passam a ser alegres e irreverentes.

Até aí, íamos muito bem. Os roqueiros que surgiram depois – mesmo em forma de banda ou do outro lado do oceano – continuaram rendendo tributos à música do Mississipi. Beatles, Stones, Doors e Led Zeppelin, engrossavam as fileiras do rock e desgarravam apenas um pouco da estrutura tradicional.

Anos mais tarde, alguns músicos vaidosos e menos ortodoxos sentiram-se tentados a misturar e utilizar outras possibilidades que a música ocidental oferece. Por conveniência, mercado ou preguiça, essa nova música continuou sob o rótulo de rock. Quanto mais os criativos músicos adicionavam ingredientes, menos identidade tinham e mais distantes do conteúdo seminal ficavam.

O showbizz deu tanta visibilidade para estes aventureiros que quase se esqueceu das origens. Bastava ter uma banda por traz e uma superprodução para criar um novo rockstar.

E veio o Pop Rock. Aí sim, o mercado enlouqueceu. Tudo cabia/cabe neste rótulo. Chegamos perto do fim. Mas felizmente o tempo é o melhor juiz. Como na literatura, só a música boa permanece e o resto passa.

No dia do rock, ainda se cometem alguns pecados, mas os clássicos ressurgem na memória e até ganham espaço – efêmero, é verdade – na programação da mídia.

Vida longa ao Rock’n’Roll e para o inferno com a criatividade dos músicos ecléticos e virtuosos. O rock não precisa disso. Para ele, quanto mais tosco melhor.

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O que disseram os mestres:

“Os blues são as raízes e todos os outros gêneros são seus frutos. Precisamos preservar as raízes para continuarmos colhendo bons frutos no futuro.” (Willie Dixon)

“O blues teve um filho e o chamou de Rock’n’Roll” (Muddy Waters)

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